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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Primeiro Dia de Aula. Introdução



Quando nos inscrevemos em um curso de dança, ficamos sonhando com a primeira aula! Há uma ansiedade e um misto de sentimentos como o medo de não conseguir acompanhar, o medo de se encarar tão travada diante da professora, do espelho, das futuras colegas... E a vontade de aprender tudo imediatamente, e sair da sala de aula dançando logo no primeiro dia!

Porém, existe um longo, trabalhoso, minuncioso e gratificante processo entre o primeiro dia de aula, e o dançar em si.

Creio que esse processo poderia ser facilitado, se o ensino da dança do ventre tivesse um olhar embasado e mais atento à anatomia e cinesiologia e a observação empírica das emoções impressas no corpo, olhando de uma forma mais crítica e segura, para àquele que dança em primeira instância, que é o CORPO.

Fala-se muito que a dança do ventre ajuda as mulheres a entrarem em contato consigo mesmas, com os seus sentimentos mais profundos, e isto é sim, uma grande verdade.
Porém, em geral iniciamos uma aula de dança deixando de lado a forma do corpo de ser e estar no tempo-espaço e as suas particularidades. Ou seja, as professoras tendem a deixar de lado o ensino da observação do como está este corpo, e a ambientação e percepção no momento presente. Pulam essa etapa visando realizar rapidamente o sonho da aluna de dançar. Talvez cometam esse engano, por querer conquistar a aluna na primeira aula, mostrando que ela pode sair dali já satisfeita, executando um passo qualquer, de qualquer jeito. 
Mas primeiro, a meu ver,é preciso mostrar à aluna, COMO esse corpo se move, e as percepções necessárias para o movimento. E também, mostrar aquelas percepções que o movimento proporciona. Ensinando assim, a descoberta da sua própria dança, desde o início, ao invés de primeiro percorrer todo um caminho do ensino da mimíca imitativa e sem personalidade, onde todas são encaixadas numa mesma forma, geralmente determinada pelo estilo da professora, para depois dizer para a aluna ir em busca do seu jeito único de dançar. Uma certa formatação e imitação, é sim necessária, mas a descoberta do seu 'jeitinho', deve caminhar junto com o aprendizado imitativo e formatador.

Prefiro que a aluna saia da primeira aula, sem ameaçar qualquer passo básico, mas que ela tenha entrado em contado com o próprio corpo! A grande maioria das pessoas, não percebe que sua coluna começa lá na cabeça, na altura das orelhas! Coluna muitas vezes nem é percebida no pescoço! Ou então, dando um exemplo lá na base, não consegue perceber que o tornozelo articula ao caminhar! E a pessoa passa a vida caminhando com um andar duro e dolorido, porque nunca teve oportunidade de realmente observar todas as engrenagens que são acionadas num simples caminhar!
Somos assim! Por incrível que pareça, há um paradoxo em sermos criados num mundo mecanicista, mas da mecânica maravilhosa e fluída do nosso corpo, de nada sabemos! Tornando-a dura, automática e dorida.

Como podemos manter uma postura elegante, se não temos a percepção necessária para fazer transferência de peso sem perder o equilíbrio?
Ter uma professora gritando "sustenta a meia ponta", não nos faz compreender o que ou como precisamos ativar tal ou qual músculo para sustentar a tal meia ponta.

E como em tudo que queremos fazer bem feito, devemos ter foco e atenção.
Devemos ter atenção plena em nosso corpo.
Para saber controlá-lo, primeiro devemos aprender como ele funciona!
Para fazer os quadris se moverem, precisamos entender o que os faz se moverem,
Para fazer de nosso corpo, um instrumento tocado por nós, capaz de transformar música em movimento, precisamos aprender como tocá-lo com maestria.
E para isso, nada melhor que uma bela aula de anatomia! rsrsrs
Porém, antes de entrar em contato com a anatomia do nosso corpo, é preciso situá-lo no tempo e no espaço.

Quando aprendemos algo novo, somos como adolescentes em fase de crescimento. Temos dificuldade de estar num espaço que antes habitávamos em um corpo que não crescia tão rápido!
Quando nosso corpo está se DESENVOLVENDO, vivemos trupicando, derrubando coisas, fazendo pequenos desastres diários, pois estamos nos adaptando, mesmo sem saber, ao nosso novo corpinho!

Então o primeiro dia de aula, é um natural e prazeroso desastre! Rs.. Estamos conhecendo o novo, o olhar diferente para a nossa "máquina" que sabe ao menos automaticamente, andar, falar, comer, sentar, deitar... E que quer aprender a dançar.
E para não sair por aí trupicando, é importante entrar em contato com a orientação tempo-espaço, com eixo, respiração, centro do corpo e anatomia.

Por hoje, sugiro algumas observações sobre como você se move no dia a dia, como você dorme, levanta, senta, caminha, corre, se mantém em pé...
Escolha três músicas, uma bem lenta, uma moderada, e outra acelerada.
Use os diferentes pulsos das músicas para perceber essas ações diárias em diferentes velocidades, executar a ação de diferentes formas, e incluir outros gestos e jeitos de como mover os membros separadamente, ordenada ou desordenadamente, andar para trás, para o lado, pular, girar, tremer, etc. SAIR DO PADRÃO AUTOMATIZADO. 

Quero começar com esse exercício, para que você não busque qualquer movimento dito como dança, e sim, busque a dança nos movimentos inusitados, diários, mecânicos e automáticos. 
Pois quando saímos do piloto automático, percebemos que todo o movimento, se adicionado de consciência, se torna uma dança.
Se você não se manter presa a pudores, condicionamentos de feio ou bonito, certo ou errado, irá se surpreender! 
Não há dualidade, precisamos descobrir o Eixo, o Centro. 
Aquele ponto no qual somos livres para apenas Ser.
Dançar, é Libertar-se.

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